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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Riso sob a chuva.

Através da janela embaçada pela chuva, ela via grossas gotas escorrendo do lado de fora. O céu cinza chumbo parecia chorar copiosamente, tal a intensidade daquela chuva e da dor que ela transmitia. Ela porém, apesar da dor que aquele dia cinza estava transmitindo, não conseguia despregar os olhos do cenário que sua janela lhe dava. A xícara de chá na mão, o livro solto ao lado da cama, a cabeça cheia de pensamentos e aflita. Era como se alguma coisa importante tivesse sido esquecida nos últimos dias, ou mesmo tivesse passado despercebida. 

Sentada ali, contemplando o dia choroso que se escorria lá fora, ela de repente notou algo que muito lhe atraiu. Entre todos os casacos e guarda-chuvas pretos e cinzas que quase se confundiam com a cor do dia, passou debaixo da janela dela um casal muito interessante. De mãos dadas, cada um debaixo do seu próprio guarda-chuva, ali estavam eles quebrando a monotonia daquele dia monocromático. Ela com seu guarda-chuva vermelho vivo e ele com seu guarda-chuva azul safira, andando e rindo, pois suas gargalhadas venciam a força do vento e da chuva, e entravam pela janela daquela moça com o chá na mão e o livro do lado.

domingo, 30 de setembro de 2012

Outro setembro.

Mais um setembro chega ao fim, e se despede por este ano com um sol fraco e um dia levemente gelado. As coisas pareciam correr lentamente nos últimos tempos, já que os dias para o ano seguinte teimavam em passar lentamente, fazendo com que o dia mais ansiado por ela ainda parecesse longe, distante demais. Sonhava com a vida vindoura todos os dias. Às vezes até, todos os momentos. Sabia que sua vida seria boa, tendo seu companheiro e amigo ao lado dela, por todos os setembros que viriam pela frente.

Ao acordar neste trinta de setembro, lembrou de tantos outros que viveu, sentada ali, vendo a vida passar mais do que vivendo. Tanta coisa e tantas histórias vinham a sua mente.. as tardes de preguiça e despreocupação da adolescência, quando uma briga com uma amiga era o maior problema com o qual tinha que lidar. Agora, sentada embaixo das cobertas, com seu café ao lado, se via muito mais velha, embora alguns anos apenas separassem estes dois momentos da sua vida. A menina ingênua e insegura fora abandonada há algum tempo, sendo gradativamente substituída por uma mulher, que crescia e amadurecia a cada dia novo que passava ao lado de seu companheiro.

Neste trinta de setembro ela sonha com coisas que quando nova, achava que demoraria muito tempo para desejar, e agora sabe que precisa realizar estes sonhos todos também para ter sua família completa, seu sonho perfeito.

Este setembro se despede melancolicamente este ano, anunciando que ano que vem ele será vivido de maneira totalmente nova e diferente, naquele cantinho que seria de sua família por tantos anos..

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A canção da fundação do mundo.

"No escuro, finalmente, alguma coisa começava a acontecer. Uma voz cantava. Muito longe. Nem mesmo era possível precisar a direção de onde vinha. Parecia vir de todas as direções, e Digory chegou a pensar que vinha do fundo da terra. Certas notas pareciam a voz da própria terra. O canto não tinha palavras. Nem chegava a ser um canto. De qualquer forma, era o mais belo som que ele já ouvira. Tão bonito que chegava a ser quase insuportável. O cavalo também parecia estar gostando muito [...].
 - Meu Deus! - exclamou o cocheiro. - Não é uma beleza?
E duas coisas maravilhosas aconteceram ao mesmo tempo.
Uma: outras vozes reuniram-se à primeira, e era impossível contá-las. Vozes harmonizadas à primeira, mais agudas, vibrantes, argênteas.
Outras: a escuridão em cima cintilava de estrelas. Elas não chegaram devagar, uma por uma, como fazem nas noites de verão. Um momento antes, nada havia lá em cima, só a escuridão; num segundo, milhares e milhares de pontos de luz saltaram, estrelas isoladas, constelações, planetas, muito mais reluzentes e maiores do que em nosso mundo. Não havia nuvens. As novas estrelas e as novas vozes surgiram exatamente ao mesmo tempo. Se você tivesse visto e ouvido aquilo, tal como Digory, teria tido a certeza de que eram as estrelas que estavam cantando e que fora a Primeira Voz, a voz profunda, que as fizera aparecer e cantar.
[...]
A Voz na terra estava agora mais alta e triunfante , mas as vozes no céu, depois de entoar com ela por algum tempo, tornaram-se mais suaves.
Longe, perto da linha do horizonte, o céu se acinzentava. Movia-se uma aragem leve e refrescante. O céu naquele ponto tornava-se gradualmente mais pálido. Já se viam formas de colinas recortadas contra ele. E a Voz continuava a cantar.
[...]
O céu do oriente passou de branco para rosa, e de rosa para dourado. A Voz subiu, subiu, até que todo o ar vibrou com ela. E quando atingiu o mais potente e glorioso som que já havia produzido, o sol nasceu.
[...]
A terra tinha muitas cores - cores novas, quentes e brilhantes, que faziam a gente exaltar... Até que se visse o próprio Cantor. Então, todo o resto seria esquecido.
Era um Leão."

As Crônicas de Nárnia - O sobrinho do Mago
C.S. Lewis

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Marta e Maria e os reflexos de hoje.

"Indo eles de caminho, entrou Jesus num povoado. E certa mulher, chamada Marta, hospedou-o na sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, e esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos. Marta agitava-se de um lado para outro, ocupada em muitos serviços. Então, se aproximou de Jesus e disse: Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me. Respondeu-lhe o Senhor: Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas cousas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma cousa só: Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada."
Lucas 10: 38-42.

Embora Jesus tenha deixado claro acima à ambas as mulheres que devia ser prioridade na vida das pessoas o convívio com Jesus, vejo hoje no meio cristão - de maneira muito frequente - as pessoas preferindo agir como Marta, gastando o seu tempo com atividades e tarefas sem um propósito verdadeiro maior, ao invés de agir como Maria, que preferiu se sentar e contemplar o Mestre, desfrutar da comunhão ali presente.

Um ativismo estúpido tem invadido muitas igrejas, levando as pessoas a fazerem mais e mais eventos, sem se preocupar realmente em viver. Viver o compromisso de Cristo, viver o exemplo por ele dado, viver a comunhão dada por ele a nós todos, para desfrutarmos com nossos irmãos.

Este cristianismo burro e preguiçoso que vem contaminando nossas igrejas, enraizando fundo um hábito, um vício de ser "sem cultura" leva facilmente a mente das pessoas à ações vazias. São muitos "flashmobs evangelísticos" para pouco olhar e ajuda ao próximo, carente na esquina pedindo um pão. São muitos cultos para ocupar o sábado à noite dos jovens para pouca comunhão e amor verdadeiros. Enquanto estamos todos na igreja todo mundo se ama e é feliz, mas as pessoas realmente se importam em saber como vai a vida, os sonhos e os problemas de cada um?

Não quero, por meus escritos, ser acusada de acomodada. Eu sou do tipo de pessoa que acredita que "eventos evangelísticos" devem ocorrer fora da igreja, e acredito também que para evangelizar uma pessoa eu não preciso falar incansavelmente do amor de Cristo. Eu preciso vivê-lo e transmiti-lo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Aquela velha conhecida.

Não sabia de onde toda esta tristeza tinha vindo. Só sabia que ela havia chego e tomado lugar dentro do seu peito, como uma velha conhecida, de tempos frios e sombrios. Nem mesmo o sol do lado de fora de sua janela aquecia o seu peito naquele dia triste. Parecia que muita coisa boa que havia dentro dela fora sugada, roubada de si, mas na verdade era que muita coisa triste havia entrado nela, e hoje ela só tinha solidão. Passou horas tentando entender como aquilo voltara, como esta tristeza apareceu de maneira tão repentina e violenta, e chegou a uma conclusão: foram decepções demais no últimos tempos, notícias preocupantes nos últimos dias e tudo isso lhe tirou a paz e a alegria. Mas ela sabia que não podia se entregar, não podia permanecer assim. Sua dor machucava pessoas que ela ama muito, e por isso precisava reagir, embora ela ainda não soubesse como, ou se teria forças. 

Por mais que não soubesse o que fazer, resolveu tomar um banho, para esfriar a cabeça e torcer para a tristeza ir embora, junto com a água que lavaria seu corpo. Era melhor do que ficar definhando na cama, tendo pensamentos cada vez piores e mais tristes. Isso, ela já sabia bem, só a arrastaria ainda mais fundo, e não era esta a sua vontade.

Talvez uma tarde de sol, deitada na grama de um parque ao lado do seu amor lhe restabelecesse suas forças e alegria. Talvez só uma boa notícia, um sorriso amigo o fizessem também.

Podia não estar feliz nem esperançosa neste momento, mas decidiu lutar pela esperança, lutar para acreditar que as coisas ficariam melhores, pois isto era o melhor que ela poderia fazer para deixar a velha conhecida no lugar dela, no passado.